Diz a lenda que um ferreiro recebeu a visita de um homem que lhe pediu que colocasse ferraduras em seus próprios pés, já cheios de fendas. Porém o ferreiro reconheceu imediatamente seu freguês como dendo o Diabo. Então, ele explicou -lhe que, para executar o serviço, teria de o algemar à parede. O ferreiro fez propositadamente com que o serviço fosse muito doloro ao ponto do próprio Diabo ter que pedir clemência. O ferreiro só o soltou depois de ele jurar solenemente que nunca mais entraria numa casa que apresentasse uma ferradura acima da porta. Assim, para se sentirem protegidas, as pessoas de Valongo do Vouga colocaram durante muitos anos ferraduras no cimo das portas das habitações e dos currais. Embora este hábito esteja em desuso, ainda é possivel encontrar ferraduras em muitas portas da vila.

 

 

Lenda dos Tremoços

 Conta-se que a Sagrada Família ia a caminho do Egito para fugir à perseguição dos soldados do Rei Heródes, que queriam matar o Menino Jesus. Então, ao passar junto de um tremoçal, os tremoços chocalhavam muito a denunciar a sua fuga.

Já o comportamento das alvéolas, pequenas avezitas, fora totalmente diferente: com o bico e a cauda disfarçavam as pegadas da burrinha e de São José, desorientando os perseguidores.

Nossa Senhora, então abençoou estas avezinhas dando-lhes a faculdade de terem movimentos muito rápidos para nunca se deixarem matar.

Aos tremoços, pelo contrário, Nossa Senhora amaldiçoou-os, dizendo-lhes que nunca matariam a fome a ninguém. E assim é de fato.

A Lenda do Linho

 

 

"Fui semente pequenina

Que alguém lançou ao chão

Rebentei, fugi da terra

Tive o Céu por direcção.

 

Eu levei tanta pancada

Tantos maus tratos levei

Nem gosto de me lembrar

Pois até a pele larguei.

Nesta ânsia de crescer

Alguém lá me foi regando

Fiz-me uma linda planta

E alguém me ia tratando.

 

Mas depois disto passar

Eu já gostei do que vi

Comecei a ficar lindo

E quase me envaideci.

Já crescidinho, fiquei

Cheiinho de flores lindas

Tão azuis, da cor do Céu

Eu tinha uma graça infinda.

 

Começaram a esticar-me

E eu dei fio fininho

Meteram-me num tear

E eu dei um lindo paninho.

Ainda cresci mais um pouco

Comecei a amarelar

E sem dó nem piedade

Trataram de me arrancar.

 

Depois desta trabalheira

A belas mãos fui parar

Fizeram em mim tais trabalhos

Que me fazem delirar.

Amarraram-me em molhadas

E eu fiquei em delírio

A partir desse momento

Começou o meu martírio.

Estou vaidoso por poder

Enriquecer os bragais

E poderem fazer comigo

Delicados enxovais.

 

 

E no final da minha história

Sinto orgulho em poder estar

Em casa do rico ou do pobre

Ou em toalha de altar."

     

 

 

 Texto retirado do Livro "Ponto Final" de Júlia dos Santos Magalhães

 

 

A Lenda da Ponte do Alfusqueiro

Embora esta ponte não se situa na Vila de Valongo do Vouga, mas sim na vizinha Freguesia do Préstimo, esta é uma lenda que fez parte dos serões de antigamente das famílias valonguenses.

 

O Diabo fez a ponte mas os cristãos benzeram-na.
O Rio Alfusqueiro de grande profundidade corre entre ravinas de vegetação cerrada sombria, contornando as penedias e cantando pelas pedras, melodias estranhas.
Aparece uma ponte de soberba cantaria branca para melhor fazer a difícil ligação entre as margens.
Os cristãos que olhavam a outra margem com desconfiança, não acreditavam que tal ponte fosse obra de fiéis. Dai atiraram as culpas ao diabo. Este teria combinado com um senhor da povoação cristã, em paga do trabalho que seria integralmente feito na noite de Natal, pertencer-lhe a alma do primeiro que por lá passasse até ao cantar do galo. E o dito senhor assinara com o seu sangue como garantia.
Angustiava-se ele e toda a família à medida que o tempo passava. Surge então a boa fada:

- Toma este ovo. Vigia a ponte.
Quando o diabo colocar a última pedra, atira o ovo pela ponte fora. Assim se fez. O ovo transformou-se no galo, e este, no meio da ponte, ao bater a meia-noite, cantou estridentemente, espantando o diabo, que furioso se sumiu pelas negras margens alcantiladas para preparar uma tempestade. Mas já os cristãos se apressavam a benzer a ponte.

Lenda da oração da princesa ou, oração da noite

 

 

"Conta a lenda, que um rapaz pobre, almejou um dia conquistar a filha do Rei, seu senhor. Como isso lhe parecia ao mesmo tempo, impossível, andava triste e a chorar pelos cantos, especialmente onde a pudesse ver de longe, em alguma varanda do castelo, ou com as aias a passear no jardim.

Um dia, estando ele num desses esconderijos, apareceu como que por magia junto dele, um homem muito feio, com dois pequenos chifres na cabeça. Ele reconheceu logo que se tratava do demónio, que lhe perguntou porque chorava. Ele contou-lhe o seu desejo, que era o motivo do seu pranto.

O esperto do demónio, ofereceu-se de imediato para o ajudar, se em troca ele lhe desse a sua alma. O rapaz, sem pensar, disse-lhe logo que sim e aí fizeram um pacto:

- Dás-me a tua alma e eu faço a filha do Rei gostar de ti e ser tua. - disse o demónio.

- Dás-me a filha do Rei e a minha alma será tua. - disse o rapaz. E o demónio já ia a desaparecer, quando o rapaz lhe perguntou:

- E como nos veremos de novo? - O demónio, cortou uma das suas orelhas e entregou-lha, dizendo:

- Toma, Sempre que quiseres falar-me, trinca a orelha que eu apareço.

O rapaz guardou a orelha e o demónio foi começar as suas manobras junto da princesa, para ver se alcançava os seus objectivos.

Porém, por mais que se esforçasse, havia qualquer coisa que o impedia de se aproximar dela.

O rapaz, cheio de ansiedade, de vez em quando lá dava uma trincada na orelha e lá lhe aparecia o “desorelhado”, trazendo cada vez a outra mais “murcha”.

- Então?! - Perguntava o moço.

- Ainda não consegui. - respondia o “chifrudo”.

Isto aconteceu repetidas vezes, mas o resultado era sempre o mesmo. Ora acontece, que, a causa do demónio não poder aproximar-se da princesa, nem a tentar, era uma “oração que ela rezava todas as noites, que o impedia disso.

Tantas vezes o rapaz o chamou que o “Mafarrico” foi obrigado a dizer-lhe:

- Não sou capaz de me chegar ao pé dela, nem de entrar no seu quarto, a porta veda-me a entrada, porque todas as noites ela reza uma oração que me impede de me aproximar dela e de tudo o que lhe pertence.

O jovem, todo indignado, perguntou-lhe:

- Então disseste-me que eras o mais poderoso, mas há quem tenha mais poder que tu?.

O demónio “derrubou” a orelha que lhe restava e respondeu:

- Sim. Tenho que confessar que (ELE) DEUS, manda mais do que eu.

Dito isto, quebraram o pacto que tinham feito e cada qual seguiu o seu destino.

Um, o destino de pobre e conformado.

O “outro” o destino de condenado.

E para terminar, aqui fica a Oração com que a princesa se defendia das astúcias de Satanás.

 

(oração)

 

         “Entrego-me a Jesus e à sua Santíssima Cruz, ao Santíssimo Sacramento e ás três relíquias que Ele tem dentro. Às três missas do Natal, que não me aconteça nenhum mal. Ao Anjo da Guarda e à Virgem Nossa Senhora, que me guardem, me livrem e me defendam das astúcias de Satanás.”

 

         Pai Nosso   Ave Maria, Glória."

 Texto retirado do Livro "Ponto Final" de Júlia dos Santos Magalhães

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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