Nos dias 10, 11, 17 e 24 de Maio de 1980, um grupo de jovens levou a palco na Casa do Povo de Valongo do Vouga um espectáculo de revista intitulado "Toca a Rasgar". O grupo era conhecido por NAC - Núcleo de Actividades Culturais, e estava inserido na Casa do Povo. O espectáculo era composto pelos seguintes números:


- UM JULGAMENTO NO SAMOUCO (Comédia em 1 acto)
- A VIDA DE UMA CRIANÇA
- JOGRAIS DE VALONGO
- ACIDENTES E ACIDENTADOS
- RADIO FERRADEIRA
- PASSAGEM DE MODELOS.
- UNS COMEM OS FIGOS… (comédia em 1 acto)

 A VIDA DE UMA CRIANÇA
 

Quando no silêncio da noite te recordo…
Olhando aquela estrela candente
Lembro-me daquele beijo tão quente,
Tão fresco como aquela rosa
Tão meigamente saído da tua boca carinhosa!

E, com aquele beijo, nasceu uma criança…
Que nasce feliz por ter muito amor
Por ter uns pais que lhe dão conforto.
Que evitam que no mundo haja tanta dor
Para que no futuro não vejas tudo morto.

Nasceu uma criança…

E desceu num mundo com estruturas sociais,
Onde os habitantes são todos iguais,
Onde não há guerra nem leis raciais
Onde não há droga nem poderes locais.
Onde não existem doentes nos corredores dos hospitais
Tratados piores que meros animais,
Onde não há hipocrisia nem poluição

Onde não se alimenta a prostituição.

A criança cresce num mundo feliz…

Onde existe a paz, o amor e a verdade
Onde existem ninhos de felicidade,
Onde não há Chaimites mas jardins-de-infância
Onde cada bala é uma rosa sem espinhos
E cada granada uma explosão de tolerância.


A criança cresceu e foi para a escola.
Aprendeu a ler, aprendeu a amar
Aprendeu a dar sem nada receber,
Aprendeu a ouvir sem nunca odiar,
Aprendeu a saber ganhar e a saber perder.

Agora, reparai…
Não são precisas mais crianças iguais?
Se quisermos ver o mundo melhor
Sem ódio, sem dor, sem coisas fatais,
Criai-os assim e dai-lhes amor
Não deixeis criar anos internacionais
Que apenas rendam p’ra comerciais.

Criai-os, amai-os, não os desprezais
Que o mundo precisa é de amor de pais,
O mundo precisa da Vossa compreensão
Para que os vossos filhos não vivam na ilusão.
Não lhes dêem brinquedos de guerra,
Vamos lutar pelo amor e paz sobre a terra
Vamos todos lutar por uma sociedade justa
Vamos todos fazer um mundo melhor?
Vamos… Vamos… Vamos…

JOGRAIS DE VALONGO


TODOS:
Minhas Senhoras e meus Senhores
Temos a honra de apresentar
Os Jograis de Valongo
Que vos irão falar.

Vamos fazer a conferência
Na nossa maneira de ver,
Como anda a Freguesia
Na sua forma de viver.

1 – São operárias
2 – São operários
3 – São lavradores
4 – São proprietários

1 – São comerciantes
2 – E industriais
3 – Os que não fazem nada
4 – E outros que tais

TODOS:
Frequentadores de café
Adeptos da bola
Nesta terra há de tudo
Até de casaca e cartola

1 – Vendedores ambulantes
2 – Negociantes de gado
3 – Alguns aldrabões
4 – E cantadores de fado

1 – Há palradores
2 – Sisudos e calados
3 – De risos enganadores
4 – E os que nasceram cansados

TODOS:
Nesta Freguesia rica
Há de tudo um pouco
E de muito berrar fica
Quase tudo rouco.

Há técnicas e técnicos
Ninguém pratica o tédio
De um pouco sabem tudo
São grandes enciclopédias

1 – E não é só isto
2 – Há muito mais
3 – Vejamos as curiosidades
4 – Dos apetites estomacais

1 – Carne de porco

2 – Carne de vaca
3 – Frangos e presunto
4 – Isto toda a gente mata …

1 – Boroa e trigo da Veiga
2 – De sabor divinal!
3 – É a grande especialidade
4 – Desta terra bestial

TODOS:
E amantes de Baco?
De apetites aguçados,
Consumidores de tabaco
Outros chupam rebuçados.

1 – Construção civil
2 – Supermercados
3 – Tascas
4 – Tipos esfolados

1 – Joga-se poker
2 – Joga-se sueca
3 – Joga-se Slots
4 – Joga-se lerpa

1 – E pescadores?
2 – Não é baralhal !!!
3 – Há por cá muitos
4 – Alguns em Carvalhal

1 – O António Matos
2 – E o Eduardo Gaiteiro?
3 – Grandes pescadores
4 – Seja de cacete ou fueiro

1 – O Manuel Pirocas
2 – É fenomenal
3 – O peixe foge
4 – E parte o canavial

1 – A pesca tem avarias
2 – E o Beto bem arrota
3 – Até se dá ao luxo
4 – De pescar gaivota

TODOS:
Mas há outros
Já pescados e ratos
É um regalo vê-los
A pescar nos pratos.

E nestas matérias
Mais havia a dizer,
Mas vamos analisar
Outras formas de viver.

1 – E o que há mais?
2 – Sejamos amáveis
3 – Há coisas bestiais
4 – Há coisas formidáveis.

TODOS:
V ejamos por exemplo
Os nossos Organismos
Até nem estamos
No tempo dos “ismos”

1 – Estamos em democracia
2 – Vivemos em liberdade
3 – Há quanto tempo não via
4 – Tanta amabilidade

4 – Tivemos eleições
3 – E o povo vota
2 – Nem que seja preciso
1 – Andar de porta em porta

1 – A Junta que muito se “estima”
2 – Apareceu em blocos
3 – Só esperamos que não saiam

4 – Todos com os pés tortos

1 – Esta coisa de Junta
2 – Não é situação banal
3 – Tão completa está
4 – Até tem regente musical!

TODOS:
Tivemos o Zé Ferreira
Mai-lo o Zé Falcão
E o Zé Fernandes ainda
Não deram safanão.

Aí vai adivinha
Para matutar
E vejam lá
Se conseguem acertar

1 – Com apenas duas letras
2 – Se escrevem quatro linhas
3 – Nada disto são tretas
4 – Foram quatro maravilhas

TODOS: - Nós ajudamos, nós ajudamos…

1 – Então como é?
2 – Já acertaram?
3 – Não têm um lamiré?
4 – Palermas ficaram!!!

TODOS: - Nós apelamos, nós apelamos…

1 – J. F.
2 – J. F.
3 – J. F.
4 – J. F.

TODOS: - Nós reclamamos, nós reclamamos…

1 – Eu explico
2 – Tem cá uma alegria
3 – Então não vêm?
4 – Foi a Junta de Freguesia!

TODOS:
Mas faltam mais três
É bem verdade!!!
Então quem são,
Na realidade?

Ei-los agora contentes
José Ferreira, scretário espertalhão
José Falcão ex-Presidente
José Fernandes, tesoureiro mandrião.

1 – E os outros?
2 – Quais?
3 – Os de agora...
4 – Os actuais...

TODOS:
Uma maravilha
Na perseverança
O que dará
A santa aliança?

1 – Mas ainda há
2 – Quem acredite
3 – Na doença
4 – Da conjuntivite?

TODOS: - Esperemos que não, esperemos que não …

1 – E a Casa do Povo
2 – O que nos dá?
3 – Um grande salão
4 – P´ra dançar xá-xá-xá

4 – Já passava despercebida
3 – Outra actividade
2 – Que muito está
1 – Na actualidade

TODOS:
Mas esperem
Não se trata d’amores
Muito simplesmente
De caçadores

1 – Esta terra de fenómenos
2 – Tem encantamento
3 – Mas mais parece
4 – O Entroncamento

1 – No fenómeno da caça
2 – Esta é de pasmar.
3 – Algum dia viram
4 – Um melro caçar?

1 – E não fica por aqui
2 – Esta coisa de passarinhois
3 – Também há quem cace
4 – Só com rouxinóis

1 – E o Amigo Chancas?
2 – Tantos como as mães
3 – Quando vai à caça
4 – Nada de coelhos – só cães!

TODOS:
Este Grupo de Jograis
Em perfeita sinfonia
Vai falar dos musicais
Cá da nossa Freguesia.

De pequenino se torce o pepino
- Dizem os mais sabedores –
Por isso há que começar
Pelos “pequenos cantores”

1 – O Sr. Adriano, maestro
2 – Em constante irritação
3 – Manda dois murros no micro
4 – E atira as estantes ao chão

1 – Alto e pára o baile !!
2 – Donde vem este ruído espesso?
3 – Lá está o Sr. Zé Morais
4 – Com a partitura do avesso.

1 – E quando chega o Sr. Augusto
2 – Às vezes mete-nos medo
3 – Quando dá um «mi» agudo
4 – Parte os vidros no Moutedo

TODOS:
Ali, a manter o compasso
Com o bigode em rascunho
Fica o Sr. Amílcar

De maçaneta em punho

Outros há mais controversos
Não escondendo a preguiça.
Fazem da viola gravata
E arranham o órgão na missa.

1 – Por falar no órgão…
2 – O Vasco não está esquecido
3 – Quando os outros tocam em Dó
4 – Ele toca em Fá sustenido!

1 – E o Sr. Neca Morais?
2 – Quer vício tão fraco!!!
3 – Enrola os papéis de música
4 – No bolso do casaco.

4 – Para transportar o saxofone
3 – Sem querer ser drástico
2 – Vamos comprar mala de couro
1 – P’ra substituir o saco de plástico.

TODOS:
Os músicos vão para um lado,
Para o outro a garotada
Disfarçam as catequistas
Berrando em voz esganiçada.

Resumindo e concluindo
Como resultado final
Lá vai o nosso Povo
Para a nossa Catedral.

1 – Nesta ronda musical
2 – Aos craques da freguesia
3 – Não era possível esquecer
4 – A orquestra ex-Cotovia.

1 – Hoje em dia renovada
2 – Toda ela Evolução
3 – Passou do piar da cotovia
4 – Ao roncar de um avião.

TODOS:
À frente vai o regente
Sempre cheeinho de pressa,
Leva o trompete no bolso
E uma pipa à cabeça.

1 – E agora, aqui para nós
2 – É tão esquecido esse tipo
3 – Põe uma aduela no trompete
4 – E uma surdina num pipo!

1 – Então, quem são os outros?
2 – São de fácil dedução.
3 – O Lima, O Zé Vítor e o Jorge
4 – E uma última aquisição.

1 – O Lima de tanto solar
2 – Apanhou insolação.
3 – E o Zé Vítor no contra-baixo
4 – Parece que só come feijão.

1 – Outro salta, esbraceja, gesticula
2 – Qual baterista Evolução,
3 – Atira as notas pela janela
4 – E consegue espetá-las no chão.

RESUMO FINAL – TODOS:

E nesta deambular
Pela nossa freguesia,
Apenas quisemos dar
Um pouquinho de alegria.
Não haja ressentimentos
Nem qualquer reacção,
Porque aquilo que fizemos
Foi de boa intenção.
Não nos anima a ideia
De qualquer derrotar,
Porque já basta
De tanto chorar.
E esta vida são dois dias,
Dois dias a penar,
Valha-nos ao menos isto
Para recrear.

E o que desejamos afinal,
São muitas felicidades
Para todos em geral
E que haja progresso
No nosso torrão natal.
RÁDIO FERRADEIRA

1 – BOA NOITE!

2 – Convosco Rádio Ferradeira
Aquela que explica
O destino de sua carteira

1 – Embora p’ra você
Seja um troço chato
Tem de concordar
Que não há nada barato!

2 – Curiosidade económica:

Sabia que pelo preço actual
De um litro de gasóleo
Comprava em 1910
Um poço de petróleo?

1 – E… Rádio Ferradeira
Ensinando o destino
Da sua carteira

2 – Por falar em carteira…
V. Ex.ª que passou na rua
Já verificou
Se ainda tem a sua?

1 – (Põe a mão no bolso à procura da carteira e continua)

Se não tiver…
Não se preocupe
Ficou na loja do lado

2 – Na farmácia, no médico
No café ou no mercado

1 – Veja no chão
Veja nalgum buraco

2 – Veja na casa dos vizinhos
Em último recurso…

AMBOS: - VEJA NO BOLSO DO SEU CASACO!

1 – Já que o povo é um bombo
Subiu o açúcar
No Eugénio de Valongo

(Segue-se uma pancada no bombo)

Outra curiosidade económica:

2 – Sabia que pelo preço actual
De uma rodela de chouriça
Comprava em 1917
Uma cabeleira postiça?

1 – E… Rádio Ferradeira
Lembrando os vários destinos
Da sua adorada carteira

2 – Com tudo assim a subir
Mesmo só com pele e osso
Qualquer dia até você
Faz chi-chi pelo pescoço

1 – ÚLTIMA HORA:
Segundo notícias da ANOP
Subiram as bombas
Na Foto-Pop

2 – E agora ao suar do apito
Subiu o vinho verde no Zézito

1 – (apitava)

1 – E… Rádio Ferradeira
Ensinando o destino que leva a sua carteira

1 – Sabia que pelo preço actual dos Diários
Você comprava em 1918
Uma cadeia de aviários?

2 – Ao ouvir um tirinho
Subiram as caras de bacalhau
No Coutinho

(Dar um tiro)

1 – Sobe a fruta
Sobe a marmelada
E a sua carteira
Reduzindo-se ao nada

Curiosidade económica:

2 – Sabia que pelo preço actual de um limão
V. Ex.ª comprava em 1925
Quatro pneus de camião?

1 – E agora ao machucar um pacote de manteiga
Subiu a boroa na Veiga

(Machucar um pacote, neste caso, de margarina)

E… Rádio Ferradeira
Ensinando o destino
Da sua querida carteira

2 – Você que só come sardinha
Provando das coisas boas o aroma
Se quer viver bem ganhando pouco
É muito fácil:

AMBOS: - NÃO COMA!

1 – Ao ouvir o carneiro
Subiu o milho
No António do Ribeiro

2 – Méééé… Méééé… Mééé …

Sobe o grão-de-bico
Sobe o vinho tinto
Sobe o carapau no Porfírio
Sobe o bacalhau no Jacinto

1 – Sabia que pelo preço actual
De uma taça no Horácio
Você comprava em 1920
Um luxuoso palácio?

2 – Ao miar do gato
Corrido pelo cão
Subiu o borato
Na Farmácia Falcão

miau… miau… miau… ãooo… ãooo… ãooo…

1 – Em lerpa falando
Subiram os rebuçados
No café do Armando

2 – E… Rádio Ferradeira
Ensinando o destino
Que tem a sua carteira

1 – Sabia que pelo preço actual de uma camisola
Você agora só pode comer
Uma perninha de santola?

2 – Página de ficção científica:

1 - Vai ser construída
Em local não designado
Uma estação de tratamento
Para óleo queimado.

2 - Este óleo queimado
Em primeira amostragem
Substitui o azeite
Com grande vantagem.

1 – E agora quando o porquinho se lavar
O seu salário vai dobrar

2 – Lava-te porco, lava-te porco, lava-te porco…
(apontando para um porco)

2 – Como nunca nenhum porco se lavou
O seu salário congelou.

1 - E… Rádio Ferradeira
Teve o grato prazer
De fazer ensinar
Como a sua carteira
De um momento pode voar

AMBOS: - BOA NO….TA

 
ACIDENTES E ACIDENTADOS



Personagens:
Médico, 3 acidentados, apresentando-se um com a cabeça toda ligada, outro com a cara e pescoço ligados e com adesivos e o terceiro com a cabeça ligada, braço ligado, olho negro, braço ao peito e de muleta. O quadro passa-se em duas cenas.

I Cena

(Passa-se à boca de cena, com pano de fundo a dividir o palco e no pano a cruz vermelha com a palavra “URGÊNCIAS” ou “EMERGÊNCIAS”. Após abrir o pano, entra o Médico, de bata branca e estetoscópio ao pescoço. Dirige-se ao público, em termos de quem se prepara para fazer uma palestra demonstrativa de acidentes).

MÉDICO: - Boa noite minhas senhoras e meus senhores. Aproveitei hoje a vossa presença aqui, para que na qualidade de médico do Posto de Primeiros Socorros desta terra, passássemos além das brincadeiras, das comédias de mau gosto e das quadras todas milimetricamente mal centradas, para falar de coisas sérias, educativas, de formação pessoal e não só, enfim procurar que com esta iniciativa outras se possam seguir do mesmo género. E, como na gíria se diz, FIM DE CITAÇÃO…
Vamos falar de acidentes e acidentados. Como sabemos, há acidentes de automóveis, acidentes de motorizadas, acidentes de trabalho, vulgares acidentes e até acidentes domésticos. Cada tipo dos acidentes apontados possui o seu grau de gravidade. Vamos especificamente referir os vulgares acidentes e os acidentes domésticos. Ora, alguns exemplos:
- O burro do dono que apanha um coice do dito.
-Uma criança, que por excessos de cuidados do pai, deu um pontapé numa pedra, esborrachou os dedos só porque o pai lhe disse: “Foge filho do boi vem para o pé do teu pai que ele marra”.
- Um individuo totalmente turbado com a bebida adorada de Baco, numa noite muito quente, em grandes ziguezagues na estrada, choca com alguns obstáculos (postes, candeeiros, árvores, etc.), a cada um deles tira reverentemente o chapéu, pedindo desculpa e de seguida encostado a um muro, fica hipnoticamente perfilado, julgando que assiste à passagem de uma procissão ou de um funeral, mas com o nariz esborrachado e em sangue.
- Um tipo que faz pontaria para um gato tinhoso e acerta na sogra que era uma santa.
- Uma pessoa, despreocupada, que em plena rua tem um acidente no fecho das calças, sendo olhado avidamente pelos feministas e algumas jovens.
Enfim, há tanta coisa que nos pode acontecer, situações banais, como estas que vamos apresentar ao vivo e saber das suas causas.
Temos quatro situações, ou melhor, quatro acidentados. São casos reais sucedidos no dia-a-dia da nossa terra. Convido-vos pois que analisemos estes quatro casos.

II Cena

(O pano que dividia o palco, abre nesta altura. A cena seguinte, passa-se num consultório médico, com mobiliário adequado, uma secretária à direita de cena e atrás uma cadeira, etc. À esquerda de cena estão três acidentados, sentados, cada um ligado da maneira que se descreveu).

MÉDICO: - Ora, como tinha referido, aqui temos os acidentados, concerteza que cada um vítima de um percalço, mas cada um deles diferente entre si. É com estes espécimes exemplares acidentais, que pretendemos alertar as pessoas para certo tipo de acidentes. Estes, já estão meio tratados e em condições de poderem contar a história do seu acidente, passados os momentos emocionais que resultaram.
(Dirige-se ao primeiro acidentado)
Por exemplo o senhor. Sofreu algum acidente?
1º ACIDENTADO: - Tive sim, Sr. Doutor...
MÉDICO: - Conte lá como foi.
1º ACIDENTADO: - Olhe, Sr. doutor, foi um acidente caseiro!
MÉDICO: - Caseiro!? A casa bateu-lhe, caiu ou foi algum tijolo que se desprendeu?
1º ACIDENTADO: - A minha mulher…
MÉDICO: - (Atalhando rapidamente) – A sua mulher… Ah!, já percebi. Um acidente doméstico…
1º ACIDENTADO: - Não, Sr. Doutor, não foi um acidente doméstico. Para mim foi um acidente selvagem.
MÉDICO: - Não percebo!!! (começa a ficar confuso) Ora, dentro de casa, um acidente domesticado, caseiro ou doméstico, ou lá o que é, e você agora diz-me que foi um acidente selvagem. Duma vez, diga lá se o acidente foi em casa ou no jardim zoológico…
1º ACIDENTADO: - Eu explico. A minha mulher que até há pouco era uma santa parecia um leão a atirar-se à vítima, que sou eu, e conseguiu partir cinco vassouras!
MÉDICO: - E você diz que conseguiu partir cinco vassouras?! Mas partiu as vassouras ou partiu a sua cabeça?
1º ACIDENTADO: - As vassouras, Sr. Doutor, tenho a cabeça muito dura!...
MÉDICO: - (para o público) Ora vejam que fatalidades destas só com pessoas domesticadas, perdão, só com homens de barba rija… queria dizer, de cabeça dura. E vejam também o prejuízo só em vassouras! Neste caso, recomendo cuidado com a força das vassouras.
(Depois dirige-se ao 2º acidentado): - E o senhor é doméstico ou selvagem?
2º ACIDENTADO: - Perdão, Sr. Doutor, veja lá como trata as pessoas…
MÉDICO: - Desculpe, as minhas desculpas. Eu queria saber… queria dizer, se o senhor ainda tem cabeça…
2º ACIDENTADO: - O senhor, como médico, fica mais transtornado que eu. Eu tenho cabeça, mas ia ficando degolado…
MÉDICO: - Oh meu Deus. Mas que acidentes eu havia de ter aqui hoje. Quer dizer que lhe iam cortando o pescoço, ou melhor, queriam tirar-lhe a cabeça do sítio, mas mais por baixo?
2º ACIDENTADO: - Não senhor doutor, mas quase…
MÉDICO: - Quase?! Ó homem explique-se, explique-me e explique a todas as pessoas para se acautelarem…
2º ACIDENTADO: - Está bem, eu explico. Foi um acidente de barbearia…
MÉDICO: - O quê? A esta hora não pagou ao barbeiro… Olhe, quem era e como foi?
2º ACIDENTADO: - Ontem, o Zé Corga, barbeiro, estava com soluços…
MÉDICO: - Esta é grossa! Soluços, navalha, serviço caro concerteza e ainda por cima sujeito a estas consequências. Neste caso (dirige-se ao público) não há nada a fazer, mas aconselhamos um seguro de acidentes contra navalhas de barba.
(Dirige-se ao terceiro acidentado) – E o senhor, cortaram-lhe na casaca? Perdão, como foi o seu acidente?
3º ACIDENTADO: - Olhe, Sr. Doutor foi o resultado de um encontro…
MÉDICO: - Ah! Negócios de saias. Então costuma ver o Dacin Days. Isto é o que se chama um doce acidente. Foi descoberto, apareceu o marido dela ou a sua mulher…
3º ACIDENTADO: - Não Sr. doutor foi com um tipo…
MÉDICO: - Percebo. Ao ser descoberto, a doçura tornou-se fel e vinagre… e você fica nesse estado.
3º ACIDENTADO: - Ó Sr. Doutor, eu ando metido num negociozito de… relógios. Enfim, sabe como está a vida…
MÉDICO: - (Aparte) Já te trato da saúde. (Alto) Tal como com os outros não estou a perceber. Então um simples relógio pô-lo nesse estado?
3º ACIDENTADO: - Eu vendi o relógio a um amigo, porque estas coisas só se vendem aos amigos. Ao outro dia o relógio deixou de trabalhar…
MÉDICO: - Já percebi. Discussão, palavra-puxa-relógio, corda partida, você aguentou e ficou nesse estado…
3º ACIDENTADO: - Também lhe digo. Eu ganho a vida honestamente, mas há por aí alguns concorrentes que às vezes precisavam do mesmo que eu…
MÉDICO: - Para você ficar nesse estado, como ficou o outro?
3º ACIDENTADO: - Ficou no hospital…
MÉDICO: - Caramba! Deram a meias valentemente…
3º ACIDENTADO: - Não Sr. Doutor, ele é lá enfermeiro…
MÉDICO (dirigindo-se ao público): - Ora aqui temos três tipos de acidentes, cada qual com as suas causas, mas com resultados iguais.
VOZ DA PLATEIA: - Mas você falou em quatro acidentes! Onde está o outro?
MÉDICO: - Não falta nenhum. Sim senhor, ainda bem que lembrou que até no quarto podemos ter acidentes. Quem diz num quarto, que é um compartimento de pequenas dimensões, até neste compartimento que é o meu consultório podemos ser vítimas de acidentes. (dirige-se à secretária) Desculpem, um momento só. Vou prescrever alguns medicamentos que possam aliviar o sofrimento destes pacientes e o recibo para mandar para a Caixa. (escreve… depois dirige-se a cada um dos acidentados) Pronto, meus amigos. Tomem esses medicamentos, podem ir ao Zé Falcão aviá-los e se ele não perceber a letra que me telefone. E aqui estão os recibos para mandar para a Caixa. São mil escudos a cada um...
OS TRÊS ACIDENTADOS SURPREENDIDOS E AO MESMO TEMPO: - Mil escudos ???!!!
MÉDICO: - A Caixa sempre dá 150$00!
OS TRÊS ACIDENTADOS: - Ai sim, então aí vai o quarto acidente !!!

(Atiram-se ao médico, que cai no chão, enquanto lhe batem. Passados momentos fecha o pano).
PASSAGEM DE MODELOS
PRIMEIRO: - Apresentado por “Becas”
MODELO: - Cinderela
COMENTÁRIO: - Reparem como um árabe se pode transformar numa maravilhosa “Chica”, isto graças às inspirações das costureiras de Carvalhal. O vestido de popelina debruado forma um contraste perfeito com os sapatos de pele de pinguim.
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SEGUNDO: - Apresentado por “Tónio”
MODELO: - Cokctaile (era assim que estava escrito)
COMENTÁRIO: - Maria Joaquina vai apresentar um modelo concebido pela tia Rita, tecedeira do Paço; consta de uma blusa de fioco sem mangas… decotada, que dadas as suas reduzidas dimensões, permite o realce dos seios mais volumosos, fazendo lembrar um colete de forças. A sua saia debruada a renda faz um maravilhoso contraste com as meias de vidro e com os sapatos de pele de andorinha, que permite um andar levíssimo.
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TERCEIRO: Apresentado por (não consta)
MODELO: - Para funeral
COMENTÁRIO: - À semelhança do que se faz em vários países, agora o luto é o vermelho. Esta ideia esteve presente na concepção do modelo e deste facto são provas evidentes a boina e as meias de vidro, contudo, para não ferir susceptibilidades mantiveram-se os padrões tradicionais europeus casaco de pele de burro manteve a tonalidade preta. A completar a homogeneidade do modelo elegante, saia plissada apoiada na estética pela maravilhosa mala de viagem.
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QUARTO: Apresentado por “Hermínia”
MODELO: De fadista
COMENTÁRIO: - Hermínia apresenta de seguida um modelo para o fado. O xaile drapejante contrastando com o seu semi-vestido às bolinhas, adquirem um ar gracioso dos grandes prados do deserto. É uma maravilhosa criação da Carpintaria da Veiga.
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QUINTO: - Apresentado por “Carlota”
MODELO: - Valonbro
COMENTÁRIO: - Apresentado por Carlota foi confeccionado pelo pronto-a-vestir Arrancadense, segundo modelo exclusivo da D. Apresentação Magalhães. Reparem que a saia dá para rodar, dizendo aos interessados que o que é bom é para se ver, dá para puxar aos ombros ficando o corpo totalmente à vontade. É mesmo uma gracinha…
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SEXTO: - Apresentado por “Felismina”
MODELO: - Para arrancar batatas
COMENTÁRIO: - Felismina apresenta um conjunto com características especiais de ventilação e refrigeração. Os botins, devido às rígidas condições de serviço, serão de carboneto de tungsténio. A saia de pele de galinha recortada, os óculos anti-infravermelhos e ultra-violetas são autênticas obras-primas da ergonomia. O colar de pérolas amarelas serve de camuflagem por se confundir com os malmequeres selvagens. Modelo concebido pelo pronto-a-vestir Pérola da Redondese.

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SÉTIMO: - Apresentado por “Auria”
MODELO: - De Verão (Moda para o Alfusqueiro)
COMENTÁRIO: - Auria, vai apresentar um conjunto de verão. Reparem na tonalidade do robe de estilo barroco, contrastando perfeitamente com a estrutura atarracada da personagem. O soutien foi desenhado pelo alfaiate José Pombo, sendo o calção original do Beco. Finalmente os óculos escuros e a mala de pele de crocodilo, colocam como que um ponto final no olho do modelo.
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OITAVO: - Apresentado por “Natércia”
MODELO: - Para travessia do deserto
COMENTÁRIO: - Natércia apresenta um modelo concebido nas Levegadas e foi inspirado na anatomia da avestruz. A camisa de alças perfurada e recortada na frente, permite realçar a barriguinha, além disso permite deixar liberdade para ingerir grandes quantidades de líquidos.
A saia de cotim leva um ramalhete de penas de peru… no… aliás na parte posterior que permite acompanhar um bando de avestruzes sem ser reconhecido.
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NONO (e último) Apresentado por “Olga”
MODELO: - Traje de noite
COMENTÁRIO: - Finalmente, Olga vai apresentar um extraordinário modelo levíssimo adequado para as noites quentes de inverno. Este modelo concebido pela boutique Linita, de Brunhido, consta de um robe cor de gladíolo e de um “baybidol” de um lilás fantasiante. A colmatar a subtileza do modelo, um esplêndido toucado branco estilo sopeira britânica. A vossa atenção para a Olga.

Esta obra foi apresentada ao público em 1966 nas festividades de inauguração dos Serviços Sociais da Fábrica Pereira Vidal e Filhos, Lda. Trata-se de um drama em 3 Atos, da autoria do Eng.º José de Bastos Xavier e encenação de António Manuel V. Xavier. A Ação decorre numa freguesia rural da região do Vouga na década de 60.

Atores (por ordem de entrada em cena):

Célia------------------------------------------------------------Dora Correia (1º ato)

                                                                  Júlia Magalhães

Guilherme----------------------------------------------------Hernâni Gomes

Marieta--------------------------------------------------------Rosa Fernandes

Padre----------------------------------------------------------Vasco Reis (1º ato)

                                                                  Manuel Lopes

Fernando Fontinha----------------------------------------Porfírio Resende

 Maria do Pelame - Júlia----------------------------------Maria de Lemos

Garoto--------------------------------------------------------Carlos Manuel

Zulmira-------------------------------------------------------Graça de Matos

Valdemar----------------------------------------------------Manuel Bento (Biscoito)

Susana-------------------------------------------------------Maria do Carmo

Julião---------------------------------------------------------Vasco Reis

Zé da Loja--------------------------------------------------Joaquim de Oliveira

Carteiro-----------------------------------------------------António Bastos

Gaviana-----------------------------------------------------Lucília Ferreira

 

Colaboração de:

Ponto------------------------------------------------------Alda de Matos

Contra Regra--------------------------------------------Isolete Lavoura

Eletricista-------------------------------------------------Eduardo Almeida

Carpinteiro-----------------------------------------------Augusto Ferreira

Cenários--------------------------------------------------J. Quintas

Decoradora---------------------------------------------Luísa Matos

Secretário----------------------------------------------Hernâni Gomes

 

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